Influências de Austen: historiadora Lucy Worsley fala sobre a vida e obra da autora

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“Com frequência Jane se hospedava na casa de parentes ricos, onde ela era a estranha. Acho que uma vez que você sabe isso sobre sua vida, passa a ler suas obras sob uma nova perspectiva”. (Lucy Worsley)

Duzentos anos depois da morte da autora inglesa icônica, Lucy Worsley conversa com Matt Elton sobre seu novo livro sobre Jane Austen, avaliando a influência que domesticidade, gênero e relações familiares tiveram em sua vida e obra.

Em contexto: Jane Austen (1775 – 1817) cresceu na reitoria em Steventon, Hampshire. Além de uma breve instrução em Oxford, Southampton e Reading, ela passou a maior parte do começo de sua vida adulta na reitoria, onde escreveu continuamente. Uma mudança para Bath em 1801 resultou em um período ocioso antes que seus anos finais (1809-1817) em Chawton se revelassem alguns de seus mais produtivos.

P: O que sabemos sobre o meio em que Jane Austen nasceu?

R: A família Austen pertencia ao que é conhecido como pseudo-aristocracia, o que dá uma forte impressão de que essa era uma classe de pessoas que geralmente gostariam de ser membros da aristocracia rural. Algumas delas eram – tinham parentes muito ricos e bem estabelecidos financeiramente no espectro familiar maior – mas o lado da família a que pertencia Jane não possuía dinheiro o suficiente para pertencer à aristocracia rural e, o mais importante, não tinha terras. Assim, eles aspiravam a um estilo de vida pelo qual não conseguiam pagar que implicava uma certa luta e um jogo de aparências. Algo que Jane fazia com frequência era se hospedar na casa de seus parentes ricos, onde ela era a estranha. Acho que uma vez que você sabe isso sobre sua vida, passa a ler suas obras sob uma nova perspectiva. Mesmo Lizzie Bennett, a heroína de Orgulho e Preconceito, é uma estranha: ela entra na casa de pessoas ricas e não gosta do que vê.

P:   Austen é famosa por escrever sobre a experiência feminina, mas ela cresceu em um lar bem masculino, não?

R: Sim, era um ambiente bem masculino com muitos garotos ao redor. No entanto, dentro da família ela criou sua própria família com a irmã Cassandra. Era comum as duas serem enviadas juntas para a escola.

Os georgianos tinham uma definição de família um tanto diferente da nossa. Não se tratava da família nuclear que incluía mãe, pai e dois filhos  – no caso de Austen, era mãe, pai e oito filhos. As crianças georgianas também eram criadas por um bando de pessoas; cuidar de crianças não era trabalho restrito aos pais biológicos. Assim, havia outras maneiras pelas quais Jane poderia receber influência feminina. Poderia ser pelas amigas e, mais tarde, pelo papel maternal de tia e mentora. Uma coisa de que gosto em suas estórias é que muitas das pessoas que desempenham o melhor papel maternal são tias, as mentoras e as amigas mais velhas – não necessariamente as mães biológicas.

P: Além da irmã, qual era a pessoa mais próxima de Jane?

R: Seu pai, George, era um homem excepcional no sentido que adorava as mulheres espirituosas, enquanto os cavalheiros georgianos convencionais se sentiam ameaçados por elas. Algo incomum para a época era o fato de George gostar de romances (em particular romances góticos melodramáticos e levemente ridículos) e encorajar sua filha a se tornar uma escritora. Ele não lhe ensinou os clássicos (isso seria ir longe demais), mas comprou papel e uma escrivaninha e atuou como seu primeiro agente. Ele não foi muito bem-sucedido nessa função, preciso dizer, mas o fato de ter acreditado nela foi algo maravilhoso.

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Retrato de Jane Austen.

P: Sabemos muita coisa sobre a reitoria Steventon, onde Jane cresceu?

R: Há cinco anos a resposta teria sido “não”, mas houve recentemente um projeto de escavação fantástico no local realizado por voluntários. A equipe descobriu várias coisas sobre a disposição da casa que até então eram desconhecidas. Eles derrubaram a ideia de que se tratava de uma bela casa de campo em que havia bailes e tea parties do tipo que você veria em adaptações para o cinema de A Abadia de Northanger, por exemplo. Não era nada disso: era uma casa de fazenda. Era o local onde o senhor Austen exercia sua função de clérigo; era também um internato que os Austen mantinham como fonte de renda adicional. Havia, portanto, muitas atividades econômicas ocorrendo nesse mesmo lugar.

P: Outra relação importante na vida de Jane foi a com Tom Lefroy. Qual sua visão disso?

R: Em muitas biografias de Austen, Tom Lefroy é o homem que partiu o coração de Jane quando ela tinha 20 anos de idade. Ele era um estudante de direito irlandês elegante que veio a Hampshire para as férias, flertou com ela de maneira escandalosa, dançou com ela em bailes e depois partiu. Jane escreveu algumas cartas para sua irmã descrevendo, superficialmente, quão decepcionante foi a experiência: ela fala sobre um romance condenado e lágrimas caindo.

Na verdade, porém, ela estava brincando. Tudo que Jane escreveu ao longo de sua vida tem um sentido duplo e pode ser lido de diferentes maneiras. O que acredito que ela estava fazendo nessas cartas é parodiar as convenções das estórias românticas, pois, claro, a heroína está sempre em lágrimas e sendo abandonada por um homem. Essa é uma distinção importante, porque se você acreditar que seu coração foi partido, isso faz parecer que o restante de sua vida esteve fora de seu controle e sugere que havia se tornado uma solteirona amarga e magoada. Na realidade, ela estava muito mais em controle de sua vida do que podemos imaginar.

P: Há outras maneiras nas quais nossas percepções comuns sobre a personalidade de Austen estão incorretas?

R: Existem quase tantas interpretações diferentes de sua vida quanto há historiadores. O que eu diria é que cada geração tem a Jane Austen que merece. Os vitorianos queriam encontrar, e encontraram, uma boa mulher que era uma irmã gentil, filha adorável e excelente tia que produziu seus livros quase por acidente sem nenhum esforço aparente. Mais tarde, no século XX, as pessoas passaram a procurar por, e encontraram, uma escritora profissional mais apaixonada, agressiva e economicamente consciente.

Eu também busquei aquilo que queria encontrar, que era uma feminista. Admito que isso não é muito objetivo da minha parte, mas estou colocando minhas cartas na mesa.

P: Como foi a experiência de Austen em relação a sua estreia no meio social?

R: Quando você chegava à idade considerada adequada para o casamento, seus pais a colocavam em exibição no mercado. A excitação de tudo isso provinha do conhecimento de que este era um ponto de sua vida em que você mais tinha poder: o poder de dizer “não” a pretendentes. A parte ruim é que esse era um negócio arriscado: você poderia acabar prolongando as coisas e, duas temporadas depois, não seria exatamente a mesma pessoa de antes. Seu poder econômico, sua habilidade para conquistar um homem que sustentaria o estilo de vida ao qual estava acostumada, começaria a se deteriorar à medida que chegasse ao que Austen chamava de “os anos de perigo”, que começavam aos 29 anos de idade. É por isso que, por baixo de toda a espuma dos romances de Jane Austen, há decisões calculadas e econômicas.

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Mesa de Jane Austen em Hampshire, Inglaterra.

P: Quão desconfortável Jane Austen se sentia devido a essas realidades econômicas? 

R: O que mais aprendi visitando suas casas é quão simples eles eram e até que ponto suas acomodações eram temporárias. Ela estava sempre vivendo de acordo com normas alheias; primeiro como filha e depois como irmã. Após a morte de seu pai, passou a receber presentes generosos de seus irmãos, mas não houve uma continuidade de renda. A insegurança gerada por essa situação é óbvia. Nessas circunstâncias, Jane Austen poderia achar muito atraente a ideia de, talvez, ganhar algum dinheiro como escritora. A parte trágica é que os rendimentos de Austen como romancista giravam em torno de £650. Essa era uma quantia considerável comparado à sua mesada (£20 por ano), mas para um advogado profissional georgiano isso correspondia à renda de apenas seis meses.

P: A mudança para Bath foi um momento determinante para Jane?

R: Quando Jane estava na casa dos 20 anos, seu pai decidiu que iria empacotar todas as suas coisas e enviá-la para Bath contra sua vontade. É possível pensar que foi nesse ponto que, mais do que nunca, ela se sentiu prisioneira das circunstâncias. Há também o argumento de que durante seu tempo em Bath (que tradicionalmente sempre foi visto como desesperador, árido e melancólico para seus escritos) ela não escreveu muito porque estava se divertindo demais. Eu acredito, porém, que Bath não lhe agradou por conta da grande socialização exigida. Não a vejo particularmente interessada em adular pessoas ricas ou caçar um marido.

P: Por que, então, ela se mudou para Chawton? E por que sabemos tanto sobre suas atividades diárias nesse período?

R: O motivo porque a história de Austen tem um final parcialmente feliz se deve a uma decisão motivada por fatores econômicos que sua mãe tomou enquanto seus filhos cresciam. Edward, irmão de Jane, era um garoto muito bonito, e alguns parentes ricos disseram que gostariam de adotá-lo. Isso pode parecer muito estranho nos tempos atuais, mas a senhora Austen pôde perceber que isso o ajudaria na vida: ele passaria a fazer parte da aristocracia rural. Isso também significava que, quando a senhora Austen estivesse mais velha e Jane com 30 anos, ele poderia lhes oferecer um cottage isento de aluguel em suas propriedades. Era como um plano de pensão: ceder um filho para que ele se tornasse rico e pagasse para que você pudesse viver em uma idade avançada.

Sabemos muito sobre esse período porque as jovens sobrinhas de Jane a visitavam e deixaram relatos sobre como era tudo. Aparentemente, a mãe e irmã de Jane a protegeram de todas as coisas convencionais que eram esperadas de damas georgianas, de maneira que pudesse priorizar seus escritos. Isso era algo mantido em certo segredo, pois escrever ainda não era socialmente respeitável. Tudo que ela precisava fazer em casa era preparar o café da manhã; depois poderia ir para seu quarto e se concentrar. Ela escreveu as principais obras de sua maturidade nesse período: EmmaMansfield Park e, finalmente, Persuasão.

P: De que maneira você gostaria que este livro mudasse a ideia que as pessoas têm de Jane Austen como romancista e como pessoa?

R: Às vezes, Jane Austen é utilizada como um símbolo de algo decoroso, apropriado, um tanto frívolo e essencialmente britânico. Não. Isso é se deixar levar pela ironia social: ela é uma mulher crítica, interessante, importante e às vezes amarga. Acredito que algumas das decisões que ela tomou sobre como viver sua vida são quase tão importantes quanto seus livros. Sem um você não tem o outro.

Lucy Worsley é autora do recém-lançado Jane Austen at Home: A Biography by Lucy Worsley (sem tradução). Hodder and Stoughton. 400 páginas.

 

(fonte: http://www.historyextra.com/article/bbc-history-magazine/lucy-worsley-jane-austen)

 

 

 

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