Margaret Nicholson: a mulher que tentou matar o Rei George III

nicholson

No dia 2 de agosto de 1786, uma mulher chamada Margaret Nicholson foi presa por tentativa de assassinato do Rei George III. Julgada louca, e enviada ao hospício de Bedlam, o incidente a transformou em uma celebridade relâmpago. Foram escritos às pressas nada menos do que cinco livros, além de panfletos, que afirmavam ser relatos de sua vida. Todos foram colocados à venda da noite para o dia, sendo um deles escrito por seu senhorio, Jonathan Fiske, que, convenientemente, vendia livros e itens de papelaria. Esses livros, mesmo os de Fiske, eram baseados em grande parte nas matérias que foram publicadas em jornais logo após a tentativa de assassinato. Fofocas escandalosas e fatos incorretos foram outras fontes de inspiração reproduzidas com frequência, persistindo até hoje.

Margaret Nicholson não nasceu em 1750, filha de George Nicholson, um barbeiro de Stockton-on-Tees, conforme declarado na maioria das fontes, inclusive o respeitadíssimo Oxford Dictionary of National Biography. Tampouco ela nasceu em Stokeswell, Yorkshire, como afirmou Fiske. Na verdade, era a filha de Thomas e Ann Nicholson de Stokesley, ao norte de Yorkshire. Ela nasceu em 1745 e foi batizada em 9 de dezembro de 1745, sendo a quarta criança do casal. Thomas Nicholson, porém, era de fato um barbeiro; essa informação estava correta.

Seu irmão, cujo nome foi publicado nos jornais e apresentou evidências no julgamento, era George Nicholson, proprietário de um pub chamado Three Horsehoes em Milford Lane, na Strand, uma via que conduzia da Igreja de St. Clement ao Rio Tâmisa.

Margaret partiu de Stokesley em direção a Londres quando tinha apenas 12 anos de idade, conseguindo trabalho em diferentes casas respeitáveis antes de atingir sua fama aos 40 anos. Ela morreu no Bethlem Hospital (Bedlam) em St. George’s Fields, sendo sepultada no local no dia 21 de maio de 1828, sua idade erroneamente indicada como 90 anos de idade.

O artigo de jornal a seguir detalha sua tentativa de assassinato do rei e, escrito apenas algumas horas após o evento e buscando abafar os rumores que já estavam tomando as ruas de Londres, pode ser aceito como um relato autêntico.

nicholson (1)
Margaret Nicholson sendo detida após a tentativa de assassinato do rei (em azul).

THE SCOTS MAGAZINE, Agosto, 1786.

Detalhes da tentativa de MARGARET NICHOLSON de assassinar sua MAJESTADE.

LONDON GAZETTE EXTRAORDINARY

St. James’s, Quarta-feira, Agosto 2.

Nesta manhã, enquanto sua Majestade descia da carruagem em frente aos portões do palácio, uma mulher, que aguardava sob o pretexto de apresentar uma petição, atacou sua Majestade com uma faca; mas felizmente sua Majestade não foi ferida. A mulher foi detida no mesmo instante e, após algumas avaliações, considerada insana.

Uma Gazeta extraordinária dá importância a um assunto; mas esta gazeta é tão curta, que alguns detalhes adicionais deste fato muito interessante parecem necessários.

Foi às portas do jardim no lado oposto do muro do Duque de Malborough que a mulher, que estava vestida de maneira decente, entregou a sua Majestade um papel dobrado semelhante a uma petição. Sua Majestade, ao inclinar-se para recebê-lo, sentiu algo sendo empurrado contra sua barriga, que passou entre seu casaco e seu colete. O Rei recuou e disse: “O que esta mulher está fazendo?”. Nesse mesmo instante, um dos guardas reais que a seguravam percebeu algo caindo de sua mão, que outra pessoa apanhou e disse: “É uma faca!”. O Rei falou: “Não estou ferido – cuidem dessa mulher – ela é louca – não a machuquem”.*

Em seguida, sua Majestade entrou no palácio. Quando havia se recuperado da surpresa, pareceu estar muito afetado, expressando em uma voz um tanto hesitante que “certamente! ele não havia merecido tal tratamento de quaisquer de seus súditos”. Ao abrir o papel, depois de entrar nos aposentos reais, leu “A Sua Excelentíssima Majestade”, o cabeçalho normal para petições, e nada mais.

A mulher foi detida de imediato e levada para a sala interna dos guardas. Ao ser questionada sobre como pôde executar uma tentativa tão perversa e ousada, sua resposta foi que “quando estivesse na presença das pessoas adequadas, ela daria suas razões”.

Ela foi conduzida à antecâmara da rainha, onde permaneceu do meio-dia às cinco horas da tarde. Durante esse tempo todo, vários membros da nobreza tentaram uma conversa, mas ela se recusou a abrir a boca; parecia absolutamente indiferente diante de quaisquer representações da atrocidade de seu crime.

Às cinco horas foi conduzida ao conselho de oficiais reais responsáveis por assuntos internos para fins de avaliação, onde foi apresentada ao Advogado e Procurador Gerais e Mestre de Pergaminhos, Sr. Pitt, o Conde de Salisbury, Marquês de Caermarthen, Lorde Sydney, Sir Francis Drake e diversos magistrados.

Representation of Attempt made by Nicholson to Stab His Maje
Outra ilustração do momento em que Margaret Nicholson atacou o rei.

Durante o interrogatório, ela disse que seu nome era Margaret Nicholson, filha de George Nicholson de Stockton-upon-Tees, em Durham; que tinha um irmão que era proprietário de um pub em Milford-Lane. Que tinha vindo para Londres aos 12 anos de idade e havia trabalhado executando diferentes serviços respeitáveis. Ao perguntarem onde estava morando desde que deixou seu último trabalho, ela respondeu de maneira ansiosa que “vinha morando no exterior desde que a questão da Coroa havia surgido”. Quando perguntaram “qual questão?”, ela começou a divagar dizendo que a coroa era sua – tudo o que ela queria era seu direito – que ela tinha uma grande propriedade – e que se ela não tivesse o que era seu por direito, a Inglaterra se afogaria em sangue por milhares de gerações. Ao perguntarem novamente onde vivia, respondeu de maneira racional “na propriedade do Sr. Fisk, o papeleiro, na esquina de Marybone, Wigmore-street”. Ao ser questionada sobre seus direitos, disse que responderia somente a um juiz; seus direitos eram um mistério. Perguntaram-lhe se alguma vez havia apresentado uma petição. Ela disse que sim; há dez dias. Tal petição foi encontrada após o exame de alguns papéis. Ela continha inúmeras tolices extravagantes sobre tiranos, usurpadores e pretendentes ao trono, etc.

Ao ser convocado e interrogado, o sr. Fisk disse que ela havia morado em sua propriedade por três anos; que ele não havia notado nenhum sinal extraordinário de insanidade nela – às vezes era meio esquisita – falava sozinha com frequência – vivia de trabalhos simples, etc. Outros que a conheciam disseram que ela era muito trabalhadora e nunca suspeitaram de insanidade.

Dr. Mono, após ser chamado, alegou ser impossível afirmar naquele instante se ela era louca ou não. Foi proposto interná-la por três ou quatro dias em Tothil-fields Bridewell. Houve, porém, objeções a essa proposta, pois, segundo informado, ela era uma prisioneira do Estado. Por fim, foi acordado entregá-la a um mensageiro.

Após uma busca no local onde residia, foram encontradas três cartas sobre seu pretenso direito ao trono: uma para Lorde Mansfield, outra para Lorde Loughborough e outra para o General Bramham.

A presença de espírito e a grande humanidade de sua Majestade foram notáveis em seu comportamento diante dessa tentativa chocante e aterrorizante de tirar sua vida. Se ele não houvesse recuado com rapidez, ou se a infeliz tivesse usado a mão direita em vez da esquerda, as consequências teriam sido de natureza fatal.

Disseram que a faca estava oculta no meio do papel, mas, na verdade, estava dentro de sua capa. Quando apresentou o papel com sua mão direita, pegou a faca e deu o golpe com a mão esquerda.

O instrumento utilizado foi uma antiga faca para uso no deserto com cabo de marfim, bem desgastada até a ponta. O desgaste era tanto que qualquer pessoa que apertasse a ponta com a mão a faria dobrar sem penetrar na pele.

A notícia dessa tentativa circulou pela cidade inteira com incrível rapidez e, aumentando à medida que circulava, mil ficções foram acrescentadas. A publicação instantânea da GAZETTE EXTRAORDINARY interrompeu seu efeito nocivo.

 

*O Conde de Salisbury ordenou que fosse concedida uma gratificação ao guarda real e ao lacaio do rei, que foi o primeiro a conter a srta. Nicholson após sua tentativa contra a vida do Rei; as recompensas consistiram em 100 libras para o primeiro e 50 libras para o segundo.

 

(fonte: https://georgianera.wordpress.com/2014/08/02/margaret-nicholson-the-woman-who-attempted-to-assassinate-king-george-iii/)

 

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